terça-feira, 5 de abril de 2011

Viagem no tempo

            Hoje encontrei, por acaso, um livro de anotações do final dos anos noventa-começo dos dois mil, época em que eu escrevia muito, principalmente poemas que acabavam virando músicas nas mãos do Carlos na época pré-Pertum.
            Comecei a folhear as páginas e não consegui mais parar. Naquelas folhas estavam registros, ainda que codificados em forma de rimas metafóricas, de tudo o que eu vivi e senti há dez, quinze anos.
            Dentre os vários poemas, inclusive alguns que eram músicas das quais eu e o Carlos tentávamos nos lembrar por não termos mais a letra (e que agora temos! :D), um em particular me chamou a atenção.
            Fala de uma pessoa muito legal. Uma menina bonita, divertida e inteligente mas que SÓ não dava certo. Eu tentava continuar com ela pois sabia o quanto ela era do caralho, mas não rolava aquela química. Eu sabia que estávamos fadados ao fracasso, mas ainda assim continuava levando a coisa meio que por inércia. Foi bom que eu aprendi a não levar relacionamentos à frente sem que houvesse sentimento na jogada, pois este terminou de forma chata, com ela bem magoada. Tanto que só voltamos a nos falar uns dois ou três anos depois.
            O fato é que ao ler este “desabafo”, mais de dez anos depois, eu consegui me lembrar claramente de tudo aquilo como se fosse ontem. Inclusive da noite em que escrevi este poema triste: Shows de rock, bebida, drogas, fogueiras, enfim, anos noventa...
            Biene, chega de sentimentalismo saudosista. O que me parece tão claro pode não ser para quem lê estas linhas, mas para mim foi como ter voltado no tempo e visto o mundo com meus olhos de adolescente.

Agosto

Sozinho na madrugada
E sentindo frio,
Observando as luzes
Que passam tão rápido.
Sinto falta do ouro
E minha sede é sem fim.

Apago o último vestígio de batom
Com um gole de conhaque.
Aperto o passo
Para acompanhar seu pensamento.

Acompanho meus amigos
Até a porta do hotel
Mas prefiro não entrar.
Eu já tenho a alma tatuada
E não quero outro gárgula
Dentro de mim.

Comtemplo uma única peça
E vejo um peão e uma rainha.
Amanhã será tarde,
Mas hoje ainda é cedo.

Acendo um cigarro
E trago a solidão
Tendo o corpo circundado
Por um anel branco.

Vago pelas ruas
E sinto o gosto do orvalho
Enquanto morro de sede
Com um copo d’água na mão.

Sortudo é o meu nome
E azar a minha sina.
Desilusão nossa morada
E a água, minha menina.