terça-feira, 19 de outubro de 2010

Revillon, lama e pasta de dente

           
            Então, seguindo a esteira da ressurreição de histórias perdidas vou tentar trazer de volta mais uma, lembrada pela Iara.
            É uma linda história sobre amizade, companheirismo, confiança e respeito vivida por três amigos adolescentes na década de 90.
            Era véspera do reveillon 96/97 quando eu, Gordão, Jonh e mais alguns amigos resolvemos ir passar a virada de ano na casa que a mãe do Gordão tinha na cidade de Bonfim. Eu tinha 17 anos e quando se tem esta idade o fato de ir para uma cidade diferente com a sua turma, por si só, já é algo muito legal. Uma virada de ano então, com uma casa só para nós e algumas garotas semi-agilizadas (garotas de verdade, não prostitutas. E por semi agilizadas quero dizer “Conhecidas e solteiras; Prováveis beijos; Improváveis, mas não impossíveis, amassos sacanas”) que achavam um atrativo enorme o simples fato de sermos de BH nos esperando fazia com que essa viagem me deixasse tão animado quanto uma viagem ao leste europeu me deixaria animado hoje. Animado SE eu fosse solteiro, é claro.
            E não ria de mim! Eu tinha 17 anos, caramba!
            Enfim, a coisa prometia e lá fomos nós, com mochilas nas costas, cheias de bebidas, algum dinheiro no bolso e muitas expectativas para a rodoviária. Quando estávamos saindo de BH veio o primeiro de muitos presságios: Uma tempestade nos engoliu. Parecia que o mundo iria acabar em água.
            Mas eu estava mais preocupado naquele momento em beber a garrafa de cortezano que o John mantinha dentro da mochila sem que o cobrador visse do que com o fato de que um reveillon debaixo d'água não poderia ser tão legal assim já que tínhamos planejado passar a noite na rua. Bem, a menos que alguém se desse bem. Só que seria difícil se dar bem na rua caso não houvesse ninguém na rua com quem se dar bem. O fato é que eu não dava a mínima pra chuva. Até quando chegamos em Bonfim.
            Descemos na padaria/mercearia/restaurante/boate/fliperama que também servia como rodoviária naquele tempo debaixo de chuva forte e , apesar da distância até a casa não ser mais do que 700 metros, chegamos no alpendre completamente encharcados. Mas como estávamos bêbados, isso não era nada que atrapalhasse nosso humor.
            Trocamos de roupa, bebemos mais e ficamos torcendo para a chuva diminuir. Lá pelas 22:00 a tormenta se transformou em garôa, o que para adolescentes no estágio de embreaguês no qual nos encontrávamos era o mesmo que uma noite de céu limpo e lua cheia.
            Saímos para a rua, fomos até a praça na frente da igreja, coração de qualquer cidade de interior que se preze, e ficamos lá esperando as coisas acontecerem. E ficamos. E ficamos...
            As coisas se tornam meio confusas na minha memória daqui para a frente. Sei que conhecemos umas meninas e era quase meia noite quando fomos parar em uma casa cheia de gente que eu não conhecia.Não sei como fui parar lá, não me lembro de muita coisa (por motivos óbvios) mas sei que apesar de ter beijado uma loirinha linda, linda (pelo menos é assim que me lembro. Ê manguáça!) não me dei bem, porque acordei às 10 da manhã do dia 1 de janeiro de 1997 caído na sala da casa da mãe do Gordão, com a roupa ensopada, sozinho e com todas as camisinhas que eu havia levado na carteira intactas.
            O dia segiu lento, com chuva e a galera esmoreceu e resolveu adiantar a volta para BH para aquele dia mesmo. Eu, John e Gordão resolvemos ficar mais um dia. A galera foi embora, nós três fomos para o bar/mercearia/boate/hospital/borracharia já citado e ficamos bebendo e tentando "nos dar bem". Nada da loirinha aparecer. Pois é, não rolou.
            Acordamos no outro dia, comemos alguma coisa e fomos para a rodoviária/escola/prefeitura comprar nossas passagens debaixo DA chuva (sim. Artigo definidíssimo feminino: Era "A" chuva). Que surpresa agradável tivemos quando o cara que vendia as passagens, e que também devia ser o que fazia os pães, nos disse que não havia ônibus para BH porque a ponte de Brumadinho havia perdido metade da pista devido às fortes chuvas e que a outra parte estava interditada, pois perigava desabar.
            O vendedor-padeiro-eletricista disse que estavam tentando agilizar um ônibus que chegaria na cidade através de Piedade de Gerais, mas só para o outro dia, se rolasse.
            Voltamos para casa, compramos mais algumas bebidas e tentamos nos diverir de alguma forma: Lutas, truco, apostas, coisas assim, já que ficar fora de casa não era uma opção, devido à chuva.
            No dia seguinte voltamos à rodoviária só para descobrir que o resgate (Sim, para nós aquele ônibus era um resgate) não viria pois a ponte que ligava Piedade havia caído também. E foi assim, simples como a receita de uma limonada: Estávamos ilhados naquela cidadezinha, quase sem dinheiro e sem saber até quando.
            Voltamos para casa, separamos o dinheiro da passagem de volta e somamos o resto. Não me lembro de quanto havia, mas sei o que nós fizemos com o dinheiro. Depois de calcular bastante, decidimos que havia o suficiente para 4 maços de derby, uns 3 pacotes de macarrão, algumas latas de massa de tomate e 2 garrafas de presidente (Afinal de contas ficar ali sem bebida seria loucura).
            Compramos isso, fizemos nosso estoque e resolvemos ficar em casa esperando as coisas melhorarem. Mas para isso precisávamos nos organizar. A coisa mais importante era a comida, que era escassa. Como o Gordão não ganhou seu apelido por acaso, ele comia muito mais do que eu e o John juntos, coisa inviável. Ficou decidido, por ele, que ele comeria o mesmo tanto que nós dois, diáriamente, mas que teria direito a dez cigarros diários e eu e o Jonhn a apenas 5 cada um, já que os cigarros o ajudariam a controlar a sua fome e porque nós estávamos comprando duas garrafas de conhaque, que também diminuía a fome, só que o gordão não bebia.. Nós aceitamos, pois sabíamos como ele se transformava em um monstro quando estava com fome.
            Como os cigarros seriam poucos, optamos pelo mais forte possível: Derby vermelho. Como podem ver, usei drogas muito pesadas na minha adolescência.
            Os dias foram passando e nada da situação das pontes melhorar. A comida se tornava escassa, a bebida também e as brigas cada vez mais comuns. Era o estresse fazendo seu estrago.
            Mas no meio deste desespero todo também havia alguns momentos de diversão. Lutas de travesseiros (não aquelas briguinhas de filmes teen, mas pancadas violentas mesmo. Uma vez eu desloquei meu ombro no meio de uma e caí no chão, só para ser massacrado pelos dois. E as travesseiradas doíam, viu?), truco e o melhor de tudo: O jonh sacaneando o Gordão.
            Eles dormiam juntos em um quarto e eu dormia no quarto ao lado e toda noite o John se aproveitava do fato de que o Gordão tinha o sono muito pesado e passava pasta de dente em suas mãos e depois no seu rosto. Quado ela começava a arder ele inconscientemente tentava tirar e se sujava mais ainda. Nós morríamos de rir e ele ficava puto.
            Uma bela noite, depois de sofrer muito, fomos dormir e, como a casa não tinha forro e meu quarto era ao lado do deles, escutei a seguinte conversa:
            -Rodrigo (este é o nome do Jonh) pára com essa estória de pasta de dente. Se você fizer isso de novo eu vou apelar.
            -Beleza, Gordão. Fica de boa.
            Só que eles tinham essa conversa todas as noites, e ele sempre acordava com a cara ardendo. Daí o gordão falou:
            -Seu testudo desgraçado, eu tõ falando sério. Eu juro pela alma da minha mãe que se você fizer isso de novo eu vou afundar esses seus dentes separados. Eu tô jurando. Eu vou te machucar sério. Não coloca essa merda em mim!
            A coisa foi pesada. O Jonh falou que não faria isso, jurou, pois foi obrigado, e eles foram dormir.
            Eu bem que tentei dormir, mas sabe quando fica uma voz te falando pra fazer uma coisa? Pois é. É aquela velha estória: "Perde-se o amigo, mas jamais a piada". Esperei um tempo até poder ouvir o ronco dos dois e saí do meu quarto silenciosamente.
Fui até o banheiro, peguei a pasta de dente e entrei, com muito cuidado, no quarto deles. O gordão estava dormindo de barriga para cima, com a mão para fora da cama. Era tão perfeita a posição que parecia até que ele estava fingindo.Olhei o Jonh e ele parecia estar tendo um sonho muito bom, pois tinha um meio-sorriso no rosto. Puxei lentamente o seu cobertor e deixei sua mão descoberta, depois fui até o gordão e coloquei pasta de dente na sua mão direita. Em seguida caprichei colocando quase meio tubo de pasta nos dois lados do seu rosto. Terminado isso, fui até o John, coloquei o tubo na sua mão, tendo o cuidado de deixar uma parte suja encostar nela, cobri com o cobertor e fui para o meu quarto, tranquei a porta, apaguei a luz, me deitei e esperei.
            Devem ter se passado uns 40 ou 50 segundos desde o momento em que eu me deitei Foi quando eu escutei o grito do Gordão:
            -Filho da puta! Eu te avisei!
            Para que esta parte fique mais interessante é necessário que eu use os fatos relatado pelos dois para poder descrever melhor a cena:
            Ele se levantou da cama, foi até a cama do John e o viu, com aquela cara de feliz. Puxou o cobertor e viu a pasta de dentes na sua mão. Não teve dúvidas.
            -Filho da puta! Eu te falei para não fazer isso!
            Pum! Um socão seguido de vários socos na cara. Foi assim que o John acordou, sem ter a menor idéia do que estava acontecendo. Mais tarde ele me disse que achou que o gordão estava tendo um pesadelo, já que o seu irmão era sonâmbulo e sempre o espancava quando eles eram crianças.
            -Ai! Pára! Ai! Pára Gordão! Que que tá acontecendo? Ai!
            -Desgraçado!- E continuou socando a cara dele.
            -Sai de cima de mim Gordão, que merda é essa?
            -Te falei pra não passar mais pasta em mim, seu filho da puta!
            -Mas eu não passei! Eu juro!
            -Ah é, desgraçado? Então porque você estava com a pasta na mão, hein?
            Mais socos.
            Nesta hora eu, que até então estava escutando tudo do outro lado da parede e me contorcendo para não rir alto, não aguentei e soltei uma gargalhada muito alta. Os dois entenderam na hora o que estava acontecendo.
            O gordão olhou pro Jonh e simplesmente disse:
            -Eu não tenho nada a ver com isso. Resolve com o Alisson.- E saiu de cima dele.
            O Jonh foi até meu quarto, mas porta estava trancada. Ele a abriu com apenas um chute, tamanha era a sua raiva. Eu bem que queria pular a janela e fugiraté que seu ataque de fúria passasse, mas não tinha forças. Eu só conseguia rir. Gargalhava tanto que minha barriga doía!
            Por mais incrível que possa parecer, ele não fez nada. Apenas olhou para mim e disse:
            -Você vai pagar centavo por centavo, seu filho da puta!- E saiu do meu quarto.
            Eu fiquei rindo mais um tempo, depois saí do quarto e os dois me olhavam com uma cara que me deu medo. Não era uma cara de raiva ou ódio. Era uma cara de quem está planejando algo muito sacana.
            Conversei um pouco com eles, entrei no meu quarto, arrumei a porta e dormi, com um olho aberto e outro fechado.
            No dia seguinte eles ficaram falando sobre como iriam me sacanear, que era melhor eu não dormir e blá. Passei boa parte da tarde e da noite planejando e montando um mega aparato para travar a porta e fazer barulho caso ela fosse aberta. Tomei um banho, tranquei a porta e fui dormir. Eu me lembro como se fosse hoje do sonho que tive naquela noite.
            Eu estava andando por um passeio normal quando senti algo mordendo meu rosto. Levei a mão e vi que meu rosto estava cheio de formigas Lava-pé. Tentei tirá-las, mas elas não tinham fim. O desespero tomou conta de mim, até que eu acordei só para me descobrir com a cara toda cheia de pasta de dente e a mão também. Olhei para a porta e ela estava lá, trancada com o aparato de segurança intacto. Corri para o banheiro, lavei o rosto e vi os dois saindo do quarto morrendo de rir de mim.
            Não entendi como eles fizeram aquilo e perguntei. O que aconteceu foi o seguinte: Quando eu fui dormir o gordão quis ver o o que eu tinha feito para me proteger e eu mostrei, para lhe provar que não adiantava tentar arrombar aquela porta, o que evitaria trabalho para nós dois. Só que sem eu ver ele tirou o trinco da minha janela. O John a escalou de madrugada e o resto eu já contei.
            Um a um o placar.
            No dia seguinte, nada de ônibus para BH e na volta eu vi que o rio que passava atrás da casa já estava alcançando a rua. A esta altura a parte baixa da cidade já estava debaixo d'água. Nós estávamos sem dinheiro, sem cigarros e sem comida. Eu apelei, resolvi que iria embora de qualquer forma, pois no dia seguinte seria a mega festa de 15 anos de uma paixonite minha que estava "semi-agilizada" e eu não queria perder de forma nenhuma, além de não aguentar mais aquela situação. Me informei e descobri que havia uma saída para BH através de uma cidade que ficava a 21KM de distância: Rio Manso. Só que naquela época a estrada para lá era de terra, e estava chovendo há MUITO tempo, daí dá pra imaginar as condições da estrada, né?
            Peguei minhas coisas, me despedi dos caras e fui, debaixo de chuva tentar fazer a travessia.
            Para chegar na estrada eu tinha que atravessar a parte baixa da cidade, perto do clube, onde passava o tal rio. Estava tudo debaixo d'água.
            Paguei 2 reais para um cara com um barco que me deixou do outro lado e fui, naquela lama desgraçada, andando. História longa. Vou apenas dizer que foi punk e que caía raio pra todo lado.
            Mas eu coloquei na cabeça que valia a pena, que eu chegaria em BH, iria à festa, daria uns beijos e que tudo ficaria bem.
            MUITAS horas depois cheguei em uma praça e vi um moleque debaixo de uma marquise. Fui até ele.
            -Aqui é Rio Manso?
            -É sim.
            -Onde fica a rodoviária?
            -Aqui não tem rodoviária, moço. Só em Bonfim.
            Como assim? Eu andei 21KM, na lama, debaixo de chuva, cagando de medo dos raios para descobrir que a rodoviária mais perto era exatamente onde eu estava? PQP!
            Voltar não era uma opção. Já deveria ser umas 15:00.
            -E onde fica a saída para BH?
            Ele me mostrou e eu fui para lá. Fiquei na chuva esperando que algum carro passasse. Demorou mas passaram 2, que não pararam.
            Eu comecei a me desesperar ainda mais. Depois de mais de meia hora na chuva, vejo outro carro vindo. Não vou me esquecer nunca daquela quantum vermelha. Pulei na frente dela obstruindo a passagem. Ela parou. Fui até a janela e vi que havia um casal de idosos lá dentro.
            -Boa tarde. . Pelo amor de Deus, me ajude. Eu estou desde o reveillon preso em Bonfim, e minha mãe está quase morrendo no hospital, só que não tem como eu voltar pra casa, porque as pontes caíram. Pelo amor de Deus, me dêm uma carona até Belo Horizonte que eu te dou o dinheiro da minha passagem, que é tudo que sobrou. Eu tive de vir a pé de lá até aqui, e não tem ônibus. Por favor!
            Eles se sensibilizaram e me deixaram na porta do Sarah Kubstshek, onde minha pseudo-mãe estava entre a vida e a morte por conta de um câncer terminal no útero. Só anos depois é que eu fui saber que aquele era um hospital de ortopedia.
            Peguei um ônibus, cheguei em casa e nem tomei banho. Fui direto ligando para aquela coisa linda de olhos verdes para confirmar que eu iria na festa.
            Ela me disse que resolveu não fazer a festa e sim ganhar uma viagem para a Disney.
            No dia seguinte a ponte foi liberada e os dois voltaram pra casa a tempo de pegar o almoço.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A revista "caras" e o apocalipse

   
    
   
     Chego eu em um consultório médico para tratar de alguns problemas que não são da conta de ninguém além da minha. O fato é que eu chego, com hora marcada, e vejo aquele monte de gente. São umas sete ou oito pessoas. Acho estranho, mas não dou maior atenção. Me dirijo à secretária, me apresento, entrego meus documentos e ela faz meu cadastro. Depois de tudo pronto, me entrega os documentos e diz:
-O doutor se atrasou um pouco hoje, então a sua consulta irá atrasar também.”.
     Caralho! Como assim? Peguei essa merda deste horário pra evitar a porra do rush, fodendo toda a minha tarde, e agora vou ter de esperar?
     -Tem idéia de quanto tempo?
     -Não, mas o atendimento está acontecendo por ordem de marcação de consulta.
     -E quantas pessoas estão na minha frente?
     -Todos estes que estão sentados na sala.
     Todos os sete ou oito, né? Merda de médico! Aposto q enfiou o focinho na noite passada e agora eu sou quem tem de pagar o pato...
     O fato é que eu havia largado o taxi mais cedo para fazer aquela consulta e como já estava ali, fazer o quê, né? Está no inferno, abraça o capeta. Ou como diria um grande amigo retirante “Pisou na bosta? Abra os dedos, Alisson!”.
     Aceito minha situação e vou me sentar junto aos outros que pareciam tão felizes com aquela situação quanto eu . Como não levei nenhum livro tenho de me contentar com com qualquer coisa que eu encontre para ler. Vou até a pilha de revistas no centro da sala e começo a procurar algo que valha a pena. Uma “caras”, duas “caras”, cinco “caras”, dez “caras”, caralho! Só tem revista “caras” neste lugar!
     Como um sinal de protesto reviro toda a pilha de revistas, olho, o mais espalhafatosamente, por toda a sala claramente a procura de outro tipo de revista para ler e, não encontrando, volto resignado ao meu lugar.
     Ninguém pareceu dar a mínima para o meu ato silencioso de protesto.
     Resolvo ser mais contudente:
     -Vocês tem alguma revista que eu possa ler e assimilar um mínimo que seja de conhecimento útil enquanto aguardo, ao invés de ficar olhando fotos de mulheres de setenta anos de idade cheias de botox ou de pessoas das quais eu não tenho a menor idéia de quem sejam bebendo merlot em um castelo qualquer?!
     Tudo bem, eu admito que não falei exatamente com essas palavras. Mas juro pela minha mãe que foi o que eu quis dizer àquela maldita secretária!
Na verdade falei alguma coisa do tipo:
     -Vocês tem alguma outra revista aqui além da “caras”?
     A resposta vem carregada de indiferença:
     -As revistas que temos estão em cima da mesa.- E ela disse isso sem sequer olhar para mim!
     Ah, claro! Em cima da mesa que eu acabei de olhar e conferir, uma por uma, cada revista que estava ali! Beleza!
     Fico lá, puto da vida, olhando aquela maldita pilha de revistas. É quando percebo uma coisa: Me lembro que no consultório da minha dentista também há muitas revistas “caras” e o mesmo no da minha oftalmologista, e na maioria dos consutórios que eu visitei..
     Começo então a tentar encontrar uma lógica naquela situação. A princípio as revistas que ficam em consultórios devem servir para que as pessoas que têm de aguardar possam passar seu tempo lendo-as. A questão é que as revistas “caras” não têm quase texto nenhum para se ler. Só fotos e umas notas de rodapé, do tipo : “Agostinho Caldira Silva e Melo e sua noiva Rilmary Von Richnum Sei-U-Quet anunciam seu noivado na festa de Mike Lee Tóris”. Ou seja: não são revistas para se ler! E isso vai contra a lógica da existência das revistas neste tipo de lugar.
     “Há algo de podre no reino da Bolívia” diria o deputado mais votado do Brasil, Tiririca. Começo a ligar alguns pontos e consigo estabelecer um certo padrão, ainda que fraco: Estas revistas só se encontravam em consultórios onde a maioria dos pacientes era da classe B ou A, logo, pessoas com alto poder aquisitivo. Nunca vi nenhuma revista caras em um daqueles dentistas “doutor-buticão” do centro ou naqueles médicos que vendem atestados médicos na praça da estação. No máximo um “Super” ou um “Aqui” do dia anterior ou uma revista veja contando em primeira mão que o Cazuza tem Aids. E olhe lá!
     Então tá. O que estas pessoas têm em comum com a galera que sai na revista? Bem, a princípio, dinheiro. Ok. E o que é que a revista passa para os seus pseudo-leitores? A idéia de que se deve ficar bonito e elegante (esticado e magro) até o fim da vida.
     Certo, há uma ligação aí, mas isso por sí só não explica porque há tantas revistas destas nos consultórios. Você já viu o preço de uma revista “caras”? Elas realmente fazem juz ao seu nome, como poucas coisas no mundo! E se ela é tão cara, porque não comprar uma revista mais barata e que entretenha mais o seu paciente? Aí tem coisa...
     Alguém tem que lucrar com isso, já que uma grana preta está sendo gasta com as revistas. E não creio que seja o médico... Peraí! Caralho! Será que é possível que seja o que eu estou pensando?
     Como você fica magro e com o rosto jovem (esticado, vide Elza Soares) aos setenta anos de idade? Com botox e anfetaminas! E quem produz isso? Os grandes laboratórios!
     Não, não, só isso não explica. É uma subjetividade muito simples tentar fazer com que as revistas façam com que as pessoas queiram ficar assim. Deve haver algo mais.
     Percebo que em todas as revistas “caras” há uma predominância de cores variantes do magenta (vermelho), inclusive na capa. Será que isso quer dizer algo?
     Meu Deus! Agora sim faz sentido! Os médicos sempre têm aquelas amostras grátis de remédios para nos dar, não é mesmo? E quem é que lhes dá aquelas amostras? Os laboratórios! E se eles colocam substâncias químicas que a médio e longo prazo fazem com que as pessoas se tornem influenciáveis inconcientemente por alguns segundos quando expostas durante um certo tempo às frequências do espectro da luz vermelha? Caramba! Isso explica tudo! As grandes companhias farmacêuticas distribuem para os médicos que atendem um público que pode pagar pelo tratamento rejuvenecedor revistas “caras” e amostras grátis de remédios com substâncias de controle da mente que têm como “gatilho” a própria revista “caras”, lotada de cores vermelhas! Pelas barbas do profeta!
E se a a sugestão inconciente da opção por um tratamento estético for só uma etapa intermediária do processo? E se após usar essas substâncias, como o botox, as pessoas ficarem ainda mais sujeitas à influências externas em momentos definidos por “gatilhos” específicos? Dependendo do nível de exposição e de mensagens subliminares essas empresas podem a médio prazo até mesmo escolher o presidente do país! Quem sabe até mesmo transformar um filme do Romero em realidade!
Já pensou? As ruas lotadas de zumbis magrelos e com a cara esticada e os pobres sobreviventes tentando encontrar uma saída para a sua situação desesperadora enquanto se refugiam no teto de um supermercado? E só essas empresas teriam a cura para a praga dos zumbis elzasoarianos! Elas lucrariam bilhões, senão trilhões,  e ainda saíriam como as salvadoras da humanidade!
     Socorro! Chamem o Dan Brown!
     E que eu tomei várias daquelas amostras grátis, achando que minha médica era gente boa por me dar cinco ou seis caixas de amostras sempre que eu ia lá. Eu, feliz da vida, achando que estava economizando...
     E pensar que esta situação apocalíptica começa com vestidos vermelhos em uma revista fútil na mesa de centro de um consultório médico.
     Isso explica também porque eu faço tanta merda quando fico bebendo campari por mais de 5 horas direto...
Preciso encontrar alguma forma de me desintoxicar, de me livrar deste controle da mente! Quem sabe só usar remédios homeopáticos, parar de fumar, alguns exercícios aeróbicos, yoga, vegetarianismo.
Não, Vegetarianismo não! Pensando bem, prefiro virar zumbi a nunca mais comer aquela gordurinha de alcatra...
    Não, não. Calma Alisson! Calma, relaxe. Você está ficando estressado, e estresse envelhece a pele. E eu ando muito estressado ultimamente. Na verdade acho que se eu olhar com cuidado no espelho já consigo achar alguns “pés de galinha” no meu rosto...
    

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Carro também é gente


            Você se lembra daquela cena no final de “De volta para o futuro” quando Martin McFly vai ligar o DeLorean e ele não pega e o rapaz fica desesperado porque precisa captar o raio no momento exato para alimentar o reator e voltar para a década de oitenta? Pois então, o rapaz tenta, tenta e o carro nada de ligar. Quando ele desiste e encosta a cabeça no volate, descrente, e pede “por favor” para o carro pegar este simplesmente pega, como que se estivesse atendendo ao seu pedido. Fica claro que faltavam as duas palavras mágicas que mais abrem portas depois de “Abre-te Sésamo”, as clássicas:“Por favor”.
Ou seja: O DeLorean é um carro com personalidade e temperamental.
            Eu sei muito bem o que é ter um carro assim. Meu carro também tem instalado no motor, no painel e até mesmo no teto vários artifícios técnicos, conhecidos vulgarmente como gambiarras, de origem eletrônica. A diferença é que, além de não ser feito todo de aço inox, o meu Premillenium Falcon não consegue (ainda) voltar no tempo. Mas acima de tudo, ele é temperamental. Muito temperamental. E ciumento.
            Um dos vários exemplos que posso citar aconteceu há uns quatro ou cinco anos atrás quando eu e o Edu estávamos indo para a Serra do Cipó e eu comentei, ainda na MG10, que queria muito comprar um maveric GT, que aquilo é que era carro de verdade e como me sentiria feliz  e realizado quando conseguisse fazer isso. No meio da conversa o Premillenium começou a engasgar até que morreu. Parei o carro, o reanimei com um pouquinho de gasolina na boquinha (carburador) e seguimos viagem.
            Ele morreu mais de dez vezes antes de chegarmos ao Cipó.
            Na volta, foi a mesma coisa: Comentei sobre o maveco e ele começou a engasgar e morrer, só q desta vez nada o reanimava. Tentei de tudo, até q por fim, me lembrei da cena descrita no começo deste texto e disse algo do tipo“ Premillenium, me desculpe. Quando eu disse que queria um maveco, não quis dizer que iria te vender. Ele seria só mais um carro. Você será sempre meu carro preferido e titular. Por favor, não fique com raiva de mim. Eu tenho que trabalhar amanhã então, por favor, funcione!”.
            Eu entendo que você que está lendo este texto deve estar pensando: “Que papo de aranha! Como se ele fosse falar assim com um carro...” mas a questão é que eu falei isso para conferir um tom de comédia à situação que, àquela hora da noite de domingo, estava muito tensa.
Sou do tipo que adora fazer piadas o tempo todo. Principalmente de desgraças.
            Falei isso, o Edu riu e eu continuei interpretando meu papel, entrando no carro e dando partida nomotor.
            O carro pegou de primeira!
            Ficamos impressionados com aquilo, rimos, adulamos ele dizendo o quanto ele era um grande carro e o quanto o amávamos, etc. Tudo na brincadeira, é claro. Estávamos seguindo com o roteiro de comédia (o Edu também adora este tipo de coisa) que eu tinha adotado.
            O fato é que o carro veio do cipó a BH sem dar mais nenhuma engasgada!
            E eu nunca mais falei perto dele em comprar um outro carro...