Chego eu em um consultório médico para tratar de alguns problemas que não são da conta de ninguém além da minha. O fato é que eu chego, com hora marcada, e vejo aquele monte de gente. São umas sete ou oito pessoas. Acho estranho, mas não dou maior atenção. Me dirijo à secretária, me apresento, entrego meus documentos e ela faz meu cadastro. Depois de tudo pronto, me entrega os documentos e diz:
-O doutor se atrasou um pouco hoje, então a sua consulta irá atrasar também.”.
Caralho! Como assim? Peguei essa merda deste horário pra evitar a porra do rush, fodendo toda a minha tarde, e agora vou ter de esperar?
-Tem idéia de quanto tempo?
-Não, mas o atendimento está acontecendo por ordem de marcação de consulta.
-E quantas pessoas estão na minha frente?
-Todos estes que estão sentados na sala.
Todos os sete ou oito, né? Merda de médico! Aposto q enfiou o focinho na noite passada e agora eu sou quem tem de pagar o pato...
O fato é que eu havia largado o taxi mais cedo para fazer aquela consulta e como já estava ali, fazer o quê, né? Está no inferno, abraça o capeta. Ou como diria um grande amigo retirante “Pisou na bosta? Abra os dedos, Alisson!”.
Aceito minha situação e vou me sentar junto aos outros que pareciam tão felizes com aquela situação quanto eu . Como não levei nenhum livro tenho de me contentar com com qualquer coisa que eu encontre para ler. Vou até a pilha de revistas no centro da sala e começo a procurar algo que valha a pena. Uma “caras”, duas “caras”, cinco “caras”, dez “caras”, caralho! Só tem revista “caras” neste lugar!
Como um sinal de protesto reviro toda a pilha de revistas, olho, o mais espalhafatosamente, por toda a sala claramente a procura de outro tipo de revista para ler e, não encontrando, volto resignado ao meu lugar.
Ninguém pareceu dar a mínima para o meu ato silencioso de protesto.
Resolvo ser mais contudente:
-Vocês tem alguma revista que eu possa ler e assimilar um mínimo que seja de conhecimento útil enquanto aguardo, ao invés de ficar olhando fotos de mulheres de setenta anos de idade cheias de botox ou de pessoas das quais eu não tenho a menor idéia de quem sejam bebendo merlot em um castelo qualquer?!
Tudo bem, eu admito que não falei exatamente com essas palavras. Mas juro pela minha mãe que foi o que eu quis dizer àquela maldita secretária!
Na verdade falei alguma coisa do tipo:
-Vocês tem alguma outra revista aqui além da “caras”?
A resposta vem carregada de indiferença:
-As revistas que temos estão em cima da mesa.- E ela disse isso sem sequer olhar para mim!
Ah, claro! Em cima da mesa que eu acabei de olhar e conferir, uma por uma, cada revista que estava ali! Beleza!
Fico lá, puto da vida, olhando aquela maldita pilha de revistas. É quando percebo uma coisa: Me lembro que no consultório da minha dentista também há muitas revistas “caras” e o mesmo no da minha oftalmologista, e na maioria dos consutórios que eu visitei..
Começo então a tentar encontrar uma lógica naquela situação. A princípio as revistas que ficam em consultórios devem servir para que as pessoas que têm de aguardar possam passar seu tempo lendo-as. A questão é que as revistas “caras” não têm quase texto nenhum para se ler. Só fotos e umas notas de rodapé, do tipo : “Agostinho Caldira Silva e Melo e sua noiva Rilmary Von Richnum Sei-U-Quet anunciam seu noivado na festa de Mike Lee Tóris”. Ou seja: não são revistas para se ler! E isso vai contra a lógica da existência das revistas neste tipo de lugar.
“Há algo de podre no reino da Bolívia” diria o deputado mais votado do Brasil, Tiririca. Começo a ligar alguns pontos e consigo estabelecer um certo padrão, ainda que fraco: Estas revistas só se encontravam em consultórios onde a maioria dos pacientes era da classe B ou A, logo, pessoas com alto poder aquisitivo. Nunca vi nenhuma revista caras em um daqueles dentistas “doutor-buticão” do centro ou naqueles médicos que vendem atestados médicos na praça da estação. No máximo um “Super” ou um “Aqui” do dia anterior ou uma revista veja contando em primeira mão que o Cazuza tem Aids. E olhe lá!
Então tá. O que estas pessoas têm em comum com a galera que sai na revista? Bem, a princípio, dinheiro. Ok. E o que é que a revista passa para os seus pseudo-leitores? A idéia de que se deve ficar bonito e elegante (esticado e magro) até o fim da vida.
Certo, há uma ligação aí, mas isso por sí só não explica porque há tantas revistas destas nos consultórios. Você já viu o preço de uma revista “caras”? Elas realmente fazem juz ao seu nome, como poucas coisas no mundo! E se ela é tão cara, porque não comprar uma revista mais barata e que entretenha mais o seu paciente? Aí tem coisa...
Alguém tem que lucrar com isso, já que uma grana preta está sendo gasta com as revistas. E não creio que seja o médico... Peraí! Caralho! Será que é possível que seja o que eu estou pensando?
Como você fica magro e com o rosto jovem (esticado, vide Elza Soares) aos setenta anos de idade? Com botox e anfetaminas! E quem produz isso? Os grandes laboratórios!
Não, não, só isso não explica. É uma subjetividade muito simples tentar fazer com que as revistas façam com que as pessoas queiram ficar assim. Deve haver algo mais.
Percebo que em todas as revistas “caras” há uma predominância de cores variantes do magenta (vermelho), inclusive na capa. Será que isso quer dizer algo?
Meu Deus! Agora sim faz sentido! Os médicos sempre têm aquelas amostras grátis de remédios para nos dar, não é mesmo? E quem é que lhes dá aquelas amostras? Os laboratórios! E se eles colocam substâncias químicas que a médio e longo prazo fazem com que as pessoas se tornem influenciáveis inconcientemente por alguns segundos quando expostas durante um certo tempo às frequências do espectro da luz vermelha? Caramba! Isso explica tudo! As grandes companhias farmacêuticas distribuem para os médicos que atendem um público que pode pagar pelo tratamento rejuvenecedor revistas “caras” e amostras grátis de remédios com substâncias de controle da mente que têm como “gatilho” a própria revista “caras”, lotada de cores vermelhas! Pelas barbas do profeta!
E se a a sugestão inconciente da opção por um tratamento estético for só uma etapa intermediária do processo? E se após usar essas substâncias, como o botox, as pessoas ficarem ainda mais sujeitas à influências externas em momentos definidos por “gatilhos” específicos? Dependendo do nível de exposição e de mensagens subliminares essas empresas podem a médio prazo até mesmo escolher o presidente do país! Quem sabe até mesmo transformar um filme do Romero em realidade!
Já pensou? As ruas lotadas de zumbis magrelos e com a cara esticada e os pobres sobreviventes tentando encontrar uma saída para a sua situação desesperadora enquanto se refugiam no teto de um supermercado? E só essas empresas teriam a cura para a praga dos zumbis elzasoarianos! Elas lucrariam bilhões, senão trilhões, e ainda saíriam como as salvadoras da humanidade!
Socorro! Chamem o Dan Brown!
E que eu tomei várias daquelas amostras grátis, achando que minha médica era gente boa por me dar cinco ou seis caixas de amostras sempre que eu ia lá. Eu, feliz da vida, achando que estava economizando...
E pensar que esta situação apocalíptica começa com vestidos vermelhos em uma revista fútil na mesa de centro de um consultório médico.
Isso explica também porque eu faço tanta merda quando fico bebendo campari por mais de 5 horas direto...
Preciso encontrar alguma forma de me desintoxicar, de me livrar deste controle da mente! Quem sabe só usar remédios homeopáticos, parar de fumar, alguns exercícios aeróbicos, yoga, vegetarianismo.
Não, Vegetarianismo não! Pensando bem, prefiro virar zumbi a nunca mais comer aquela gordurinha de alcatra...
Não, não. Calma Alisson! Calma, relaxe. Você está ficando estressado, e estresse envelhece a pele. E eu ando muito estressado ultimamente. Na verdade acho que se eu olhar com cuidado no espelho já consigo achar alguns “pés de galinha” no meu rosto...
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