Você se lembra daquela cena no final de “De volta para o futuro” quando Martin McFly vai ligar o DeLorean e ele não pega e o rapaz fica desesperado porque precisa captar o raio no momento exato para alimentar o reator e voltar para a década de oitenta? Pois então, o rapaz tenta, tenta e o carro nada de ligar. Quando ele desiste e encosta a cabeça no volate, descrente, e pede “por favor” para o carro pegar este simplesmente pega, como que se estivesse atendendo ao seu pedido. Fica claro que faltavam as duas palavras mágicas que mais abrem portas depois de “Abre-te Sésamo”, as clássicas:“Por favor”.
Ou seja: O DeLorean é um carro com personalidade e temperamental.
Eu sei muito bem o que é ter um carro assim. Meu carro também tem instalado no motor, no painel e até mesmo no teto vários artifícios técnicos, conhecidos vulgarmente como gambiarras, de origem eletrônica. A diferença é que, além de não ser feito todo de aço inox, o meu Premillenium Falcon não consegue (ainda) voltar no tempo. Mas acima de tudo, ele é temperamental. Muito temperamental. E ciumento.
Um dos vários exemplos que posso citar aconteceu há uns quatro ou cinco anos atrás quando eu e o Edu estávamos indo para a Serra do Cipó e eu comentei, ainda na MG10, que queria muito comprar um maveric GT, que aquilo é que era carro de verdade e como me sentiria feliz e realizado quando conseguisse fazer isso. No meio da conversa o Premillenium começou a engasgar até que morreu. Parei o carro, o reanimei com um pouquinho de gasolina na boquinha (carburador) e seguimos viagem.
Ele morreu mais de dez vezes antes de chegarmos ao Cipó.
Na volta, foi a mesma coisa: Comentei sobre o maveco e ele começou a engasgar e morrer, só q desta vez nada o reanimava. Tentei de tudo, até q por fim, me lembrei da cena descrita no começo deste texto e disse algo do tipo“ Premillenium, me desculpe. Quando eu disse que queria um maveco, não quis dizer que iria te vender. Ele seria só mais um carro. Você será sempre meu carro preferido e titular. Por favor, não fique com raiva de mim. Eu tenho que trabalhar amanhã então, por favor, funcione!”.
Eu entendo que você que está lendo este texto deve estar pensando: “Que papo de aranha! Como se ele fosse falar assim com um carro...” mas a questão é que eu falei isso para conferir um tom de comédia à situação que, àquela hora da noite de domingo, estava muito tensa.
Sou do tipo que adora fazer piadas o tempo todo. Principalmente de desgraças.
Falei isso, o Edu riu e eu continuei interpretando meu papel, entrando no carro e dando partida nomotor.
O carro pegou de primeira!
Ficamos impressionados com aquilo, rimos, adulamos ele dizendo o quanto ele era um grande carro e o quanto o amávamos, etc. Tudo na brincadeira, é claro. Estávamos seguindo com o roteiro de comédia (o Edu também adora este tipo de coisa) que eu tinha adotado.
O fato é que o carro veio do cipó a BH sem dar mais nenhuma engasgada!
E eu nunca mais falei perto dele em comprar um outro carro...
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